Anhanguera, Luciano Huck e um erro fatal

Na publicidade, assim como em qualquer outra área, há muitas normas éticas a serem observadas. Uma delas é a famosa frase "não criar dificuldade para vender facilidade". Foi o que fez a Anhanguera, que acabou sendo criticada nas redes sociais.

A Anhanguera lançou campanha para promover seu curso de pós-graduação em formação pedagógica, utilizando como garoto-propaganda o apresentador Luciano Huck.

Tinha tudo para dar certo, afinal, educação é sempre bem-vinda, formação pedagógica é mais do que necessária e, por mais que a profissão de professor não seja valorizada, ainda é considerada uma atividade de respeito, e sempre haverá um olhar especial para quem exerce tão importante função.

Mas algo deu errado. E muito errado!

A anunciante, com um slogan infeliz, conseguiu chamar mais a atenção para o seu erro do que para o serviço.

O apresentador global aparece na propaganda com os dizeres “Torne-se professor e aumente sua renda”.

Essa afirmação, embora seja uma triste realidade, já que muitos ainda tratam a docência como um “bico”, ofende uma classe trabalhadora que lida diariamente com muito mais dificuldades do que o garoto-propaganda.

Ninguém quer se tornar um profissional para complementação de renda, especialmente quando se trata de uma profissão de natureza essencial. Ser professor não é bico, pois a carreira exige uma série de atividades extraclasse que dificilmente são compatíveis com a ideia de bico.

Não acredito que alguém faria semelhante publicidade com um curso superior de medicina ou de engenharia. Ou alguém imagina o Luciano Huck dizendo: torne-se médico e ganhe uma renda extra?

No bico não se leva trabalho para casa, não há que se fazer preparação prévia, raramente exige cursos de pós-graduação, enfim, no bico, onde realmente se ganha uma renda extra, são bem menores as responsabilidades.

Provavelmente, nenhum pai ou mãe gostaria de saber que seus filhos estão sob a responsabilidade de alguém que está lá apenas por um extra.

Mas afinal, onde foi que erraram? Em tudo. Vejamos:

I. Certamente, não houve pesquisa de mercado. Há muitas empresas especialistas em pesquisa de mercado. Dá para selecionar região, classe econômica, idade, área de atuação etc. Pelo impacto (negativo) que a publicidade gerou nas redes sociais está mais do que evidente que não houve pesquisa alguma de mercado.

II. Não há dúvida de que o apresentador Luciano Huck tem o respeito da sociedade brasileira, especialmente dos mais jovens. A sua utilização como garoto-propaganda de uma campanha tão negativa revelou dois erros: a da anunciante, de permitir a vinculação de uma personalidade tão relevante a um produto mal pensado, e a do Luciano Huck, que parece ser um sujeito com tino comercial, de aceitar fazer propaganda de algo que poderia supor, causaria mal estar em muita gente.

III. O engano de se pensar que qualquer coisa pode ser vendida. Há milhares de desempregados no Brasil. Milhares de professores, pós-graduados, com formação no exterior, preparados e experientes estão desempregados. A publicidade não pode estar insensível à realidade social.

IV. Por fim, a campanha padece de veracidade, pois parte de uma afirmação: “Realize a 2ª Graduação e torne-se professor”. A frase não deixa claro se o formado se tornará professor apenas por deter o título de bacharel ou porque conseguirá um emprego de professor.

No entanto, errar é humano. Corrigir o erro, uma obrigação. E a anunciante, vale registrar, corrigiu seu erro, vindo a público e se retratando. Disse em nota à imprensa que

“Erramos. Nós, da Anhanguera, pedimos desculpas pela mensagem equivocada sobre a função e a importância dos professores. A campanha de marketing que causou mal-estar não representa o que nós, como instituição de ensino, acreditamos, e foi retirada do ar. Por fim, esclarecemos que, esta campanha, em específico, não foi submetida à análise prévia do Luciano Huck e sua equipe.”

Erraram mesmo. E erraram feio. Depois acertaram. E que esse ato de humildade sirva de ensinamento de que é possível acertar antes de errar, e se errar, é possível pedir desculpas.