A marca de chocolate KitKat, da Nestlé, foi representada no CONAR em setembro de 2016 por suposto desrespeito e desvalorização da atividade profissional dos psicanalistas.

No filme, um paciente conta para o psicanalista ter sonhado que “a mãe era um unicórnio”, enquanto o profissional, de costas, come tranquilamente uma barra de chocolate.

O paciente segue descrevendo seu sonho, enquanto o psicanalista, sem dar a mínima atenção, continua se lambuzando com o chocolate, até o desfecho que despertou a revolta de alguns consumidores ofendidos: o paciente conta que ao final do sonho apareceu “o porteiro de biquíni”, e o médico, referindo-se ao doce, responde “hum, delicioso”.

O CONAR recebeu reclamação de psicanalistas que se queixaram de desrespeito a profissão, por fazer alusão a Sigmund Freud, pela forma distante e desatenciosa com que o médico tratou seu paciente e pelo dialogo final que resulta numa situação sexualmente constrangedora.

O CONAR decidiu arquivar a reclamação.

A relatora, Conselheira Maria Tereza Sadek, considerou o filme “bem humorado”, mostrando uma “cena claramente fantasiosa”, e sem conotação discriminatória ou desrespeitosa à profissão.

Não é raro que grupos profissionais sintam-se discriminados por propagandas “bem humoradas”, que podem ter viés agressivo apenas para intérpretes mais radicais. O senso comum é que ninguém consideraria a possibilidade de uma importante profissão ter iniciado a partir de um atendimento desatencioso e negligente como o do filme.

Todo profissional deseja ser respeitado. E mais. Todos desejam valorizar sua classe. A disputa entre o respeito profissional e os limites do bom humor não são de fácil definição, pois há questões que incidirão sempre sobre aspectos pessoais do consumidor (particularidades que a publicidade ou não consegue alcançar, ou não consegue evitar). Isso certamente ainda obrigará o CONAR a se posicionar em outros casos semelhantes.

A situação aqui é diferente de outro caso em que uma universidade produziu material denegrindo a profissão de professor. Porém, a matriz é a mesma: qualquer profissão, quando provocada pela publicidade, tende a procurar órgãos de proteção ao consumidor para manter intacta sua integridade e sua respeitabilidade.