Renault e o preconceito contra os nordestinos

    Mau gosto e preconceituoso! Esses são alguns (os mais leves) comentários sobre os novos filmes da Renault.

    Mau gosto e preconceituoso! Esses são alguns comentários sobre os novos filmes da Renault.

    O mau gosto, sem dúvida existe. São filmes inconclusivos e sem lógica válida entre o argumento inicial e a proposta da montadora. Voltarei a esta questão noutro momento.

    Os filmes da montadora foram preconceituosos? Sim, infelizmente! Houve um julgamento equivocado por parte de seus criadores de que estariam quebrando o preconceito. Pelo contrário. Apenas confirmaram a nossa triste e cruel realidade.

    NO FILME 1, um jovem de pele branca, com sotaque sulista, faz um live no centro de uma cidade nordestina e comenta, espantado, que todo o comércio está fechado. Neste momento, registra seu comentário preconceituoso:

    “a gente sabe que nordestino não gosta de trabalhar…”.

    Um colega que acompanha o live adverte o desatento viajante de que era domingo. O ator conclui que seria por isso que as lojas estavam fechadas. Após ficar desconcertado, surge a frase mote da campanha:

    “Viajar quebra preconceitos”

    NO FILME 2, uma família sai apressadamente do hotel, preocupados com o horário do voo. O pai, em meio à caminhada, diz as seguintes pérolas:

    “Os baianos têm outro ritmo, têm GPS, mas você já sabe como é né, deve ter se perdido, deve ter acontecido alguma coisa…”

    Qual não é a surpresa da família quando chegam à frente do hotel e o motorista, baiano, negro, já os está esperando em frente ao carro que os levará para o hotel. Novamente vem a infeliz frase de que viajar quebra preconceitos.

    assista o Filme 1 clicando aqui e assista o Filme 2 clicando aqui.

    Segundo o artigo 20 do Código CONAR nenhum anúncio deve favorecer ou estimular a discriminação racial, social, política, religiosa ou de nacionalidade.

    Antes, devemos nos lembrar que a Constituição, em seu artigo 3º, I, fixou como um dos objetivos fundamentais do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária, e em seu artigo 5º, caput, fixou o chamado princípio da igualdade, declarando sermos todos iguais perante a lei, sem nenhuma distinção.

    Já o artigo 37, § 2º, do CDC, considera abusiva a publicidade discriminatória de qualquer natureza.

    Por mais que a Renault defenda que a intenção da montadora ao idealizar o filme era quebrar o preconceito, o resultado foi bem outro. Partir de um argumento preconceituoso para depois tentar erradicá-lo é reconhecer sua existência, como premissa. Especialmente porque o filme tem toda a estereotipagem: os atores que figuram como “preconceituosos” são brancos, jovens e sulistas, um deles com sotaque do sul, outro com sotaque neutro, tipicamente paulistano. O jovem motorista do filme 2 é negro, para representar o baiano.

    A ideia que segue ao ato preconceituoso, de que viajar quebra preconceitos, é até interessante, desde que a possibilidade de viajar fosse real para todos. Ou quem não puder viajar continuará preconceituoso?

    Há uma diferença entre este caso e outro julgado em 1989 (Representação nº 40). Naquele, a Bombril exibia um repentista com vestimenta típica de nordestino, que, ao final da cantoria, entoava um verso que relacionava a marca com a palavra Brasil. Os queixosos apresentaram reclamação por suposta prática de discriminação. O processo foi arquivado, pois não há, na caracterização folclórica, nenhum ato de preconceito, considerando que o repente e as roupas típicas são uma tradição do nordeste, assim como a bombacha e o chimarrão constituem elementos da história e tradição do sul e assim por diante.

    Este, da Renault, é uma declaração de que ainda existe o preconceito, isto é, uma ideia previamente concebida e vigente de que o povo nordestino é vagabundo (não gostam de trabalhar), folgado (no filme 2 ao dizer que eles têm outro ritmo) e ignorante ou mentiroso (no filme 2 ao falar que mesmo com o GPS os baianos se perdem). E tudo isso apenas para vender a ideia de que viajar quebra preconceitos. Não quebra! Apenas os transporta de um lugar para o outro do país.

    Tão legal seria se tivessem optado por uma campanha que sustentasse que viajar permite conhecer a cultura e os povos deste país de tamanho continental. Valorizaria o carro, a marca e o país.

    O anúncio foi tirado do ar em menos de 24 horas. A Renault emitiu nota à imprensa, sem dizer, no entanto, qual a agência responsável pelo filme.