Dove e a comoção mundial instantânea

    Na última semana a Unilever lançou um GIF de 3 segundos em sua página do Facebook, para divulgar sabonete líquido da marca Dove nos Estados Unidos. Bastaram os 3 segundos para o mundo entrar em colapso!

    O GIF apresenta 3 mulheres que trocam de camiseta. Na sequência: uma negra, uma loira e uma morena com traços latinos. A ideia, aparentemente, era demonstrar que o sabonete líquido da marca é recomendável para qualquer tipo de pele. A estrutura do GIF é bem parecida com a que Michael Jackson utilizou na música Black or White.

    Era uma boa ideia? Sim. Então, afinal, o que deu errado? Muita coisa, a começar pelo bom senso da empresa e da agência que produziu o vídeo. Faltou brainstorm!

    A proposta de que um produto de higiene pessoal é bom, independentemente da cor da pele, é ótima. Demonstra que a empresa se preocupa com todos os seus consumidores. 

    Entretanto, o começo da sequência de imagens é com a modelo negra vestindo uma camiseta mais escura. Ao tirá-la, desvenda-se a loira, vestindo uma camiseta mais clara. Por fim, a latina, vestindo um tom intermediário. Há correlação entre o tom da pele e o da camiseta.

    As imagens que foram divulgadas logo que o vídeo foi ao ar mostram apenas a negra e a loira, numa alusão de que a Dove pretendeu demonstrar que a negra, ao utilizar o sabonete, limpou-se da sua cor e deu vida a uma loira. Ora, essa lógica não pode prevalecer, já que havia uma terceira personagem: a morena. Ou o sabonete utilizado pela loira teria o “poder” de transformá-la em morena?Chegaram a dizer até que esta terceira modelo (imagem abaixo) era asiática, o que mostra como a imprensa muitas vezes esquece de sua função de informação.

    Mas qual a razão de tamanha comoção? É que a ordem dos fatores, nesse caso, alterou o produto! O sabonete, com sua função higienizadora, foi associado a uma questão racial da qual, infelizmente, a sociedade ainda não se livrou: a de pensar que a negritude da pele é sinal de sujeira, de reducionismo humano.

    O vídeo nunca poderia começar com a negra, pois é ela que, a princípio, está vinculada à mensagem inicial de limpeza, dando lugar a uma branca, e loira!

    Ah, sim, mas tem a morena, ao final. Mas já era tarde. A associação infeliz de sujeira da pele já estava sacramentada.

    A pergunta que se deve fazer é: houve crime de racismo, como alguns veículos de imprensa divulgaram? Acredito que não. Foi muito mais a falta de maturidade sociológica, histórica e antropológica de quem produziu o GIF, do que uma intensão deliberada de demonstrar alguns viés preconceituoso da marca. O publicitário responsável pela arte não teve a delicadeza de trocar a ordem das atrizes, de modo a não parecer que a negra estava sendo limpa pelo produto do anunciante.

    A vinculação que alguns fizeram sobre campanhas racistas do passado também não pode prevalecer. São outros tempos, outras agências, e o senso crítico da sociedade está mais apurado e tecnologicamente mais rápido, já que as redes sociais em questão de horas são tomadas por todo tipo de comentário e análise.

    A anunciante fez bem. Diante da comoção geral, tirou o GIF de sua página e pediu desculpas aos consumidores. É um sinal de que ouviram a voz da sociedade que repele a discriminação, seja ela qual for, mesmo aquela que depende de alguma interpretação. O GIF é ruim e pronto!