Black is Beautiful (e sempre será!)

    Personal lança papel higiênico preto com a expressão “Black is Beautiful” (preto é bonito) e causa revolta nas redes sociais por suposta politização

    Não é novidade que as redes sociais despejam, diariamente, toneladas de ódio e de raiva. Também não é novidade que há um excesso de politização em questões que não têm nada demais ou, o que é pior, uma catarse silenciosa e melancólica em momentos que mereceriam profundo debate.

    A marca Personal lançou o produto “Personal Vip Black”, que nada mais é do que um papel higiênico preto. Isso mesmo, um papel higiênico preto! A garota-propaganda contratada pela marca foi a global Marina Ruy Barbosa, que aparece nas fotos da campanha enrolada no papel. Até aí, nada demais.

    No entanto, a repercussão nas redes sociais foi enorme, mais por causa de um possível escorregão étnico, histórico e político, e menos pelo fato de o papel higiênico ser preto. Mas será que é para tanto?

    Ocorre que a anunciante utilizou a frase “Black is Beautiful” na divulgação do produto, cuja expressão simboliza a luta antirracista americana das décadas de 1960 e 70.

    Embora a expressão seja atribuída a John Rock, abolicionista que teria (apesar de não haver comprovação histórica) empregado a frase em discurso de 1858, foi em meados da década de 60 que o manifesto tomou corpo. A ideia não era apenas lutar pela garantia de direitos civis, mas, sobretudo, mostrar ao mundo a beleza negra, e que o fenótipo afrodescendente possuía características próprias, tais como cor da pele, traços faciais e cabelos crespos, que não deveriam ser ocultadas ou adaptadas para se parecerem com o padrão estético ariano.

    O movimento denominado “Black Power”, cujos expoentes foram Huey Newton, Bobby Seale (criadores do Partido dos Panteras Negras), Angela Davis, Martin Luther King e Malcolm X, defendia a independência dos negros dos padrões impostos pela sociedade branca, e sustentava, dentre outras pautas, que os negros deveriam ter orgulho de suas características, sem o receio de expô-las ao mundo, o que fez surgir, em diversas áreas, tais como moda, gastronomia, artes, música, literatura e comportamento, padrões até hoje identificados com o movimento.

    Diante de inúmeras manifestações contrárias ao uso da expressão “Black is Beautiful” em situação de tão pouca relevância (um bendito papel higiênico!), banalizando marca histórica de um movimento político e social, os envolvidos resolveram recuar. A atriz Marina Ruy Barbosa pediu desculpas em suas redes sociais e excluiu de sua ‘time line’ qualquer referência ao movimento. A marca Personal também se desculpou e divulgou nota esclarecendo que não teve “qualquer intenção de provocar uma discussão de cunho racial (…)”.

    Se por um lado houve certo exagero das redes sociais, pois não há indício de racismo na campanha, por outro há uma justa indignação daqueles que bem sabem quanto sangue foi derramado para defesa da causa Black Power, quantas perseguições contra expoentes do movimento e quanta resistência os negros sofreram e sofrem até os dias de hoje. É difícil acreditar que a empresa, cuja marca tem uma boa reputação, tenha feito isso propositalmente!

    A reação rápida da anunciante de tirar a expressão de cena e o pedido público de desculpas dá a entender que foi mais uma falta de conhecimento histórico (ignorância de quem acreditou que a frase estava ‘abafando’) do que intenção de causar mal-estar ao apresentar uma modelo branca enrolada em papel higiênico preto, transmitindo uma ideia repugnante até mesmo para os mais preconceituosos.

    Dois fatos merecem ser destacados. O primeiro: alguns símbolos históricos, tais como o do movimento Black Power, devem ser preservados. São ícones de uma história de luta e independência de um povo que viveu épocas de opressão que não podem ser julgadas sob os parâmetros culturais do século XXI. Não porque são parte da história, mas porque ainda estão vivos e precisam ser reafirmados por uma sociedade que se pretenda justa, livre e solidária. O segundo: é bom saber que muita gente politizada está vigilante para proteger esses símbolos históricos, e elas se manifestaram e enalteceram o que sempre soubemos: que o “Black is” e sempre será “Beautiful”!