Um Cemitério para “morrer” de rir

    Cemitério quebra paradigmas e produz campanhas que desafiam tabus, medos e superstições

    O Cemitério Jardim da Ressurreição ‘bomba’ nas redes sociais por sua forma escrachada de fazer publicidade. Piadas com a morte, reflexões sobre o comportamento humano e desconstrução de tabus são algumas das formas encontradas pela empresa para conquistar o público.

    O marketing da empresa vai ainda mais longe: a anunciante incentiva, e até republica, selfies tiradas por familiares, o que, a rigor, poderia ser considerada uma situação, digamos, embaraçosa para grande parte das famílias, mas não para os gestores do Cemitério.

    Vejam algumas de suas curiosas campanhas:

     

    O Direito

    A publicidade pode ser considerada abusiva, dentre outras hipóteses, quando explora o medo ou a superstição (art. 37, § 2º, do CDC). O CONAR, em seu código, proíbe anúncios que se apoiem no medo sem motivo socialmente relevante (art. 24), bem como aqueles que explorem qualquer espécie de superstição (art. 25).

    Esta fundamentação bastaria para impedir a veiculação de tais campanhas? Ao nosso ver, sim, pois apesar de um humor inequívoco, e de serem muito bem produzidas, o anunciante ‘brinca’ com a morte, mostrando, por exemplo, o fantasma da morte em algumas de suas peças publicitárias, apoiando-se, assim, no medo e na superstição para direcionar suas campanhas.

    Veja outras imagens que talvez comprovem isso:

     

    Outro olhar para a publicidade e a posição do CONAR

    Outra interpretação, no entanto, nos leva a reconhecer a forma divertida com que trata a morte e o ato solene do sepultamento ou cremação, tornando o ritual mais palatável, a partir da constatação óbvia de sua inevitabilidade. O inverso, ou seja, se o fato inevitável fosse tratado de maneira serena e com imagens que antecipassem tristeza àqueles que precisam tomar a decisão de contratar seus serviços, provavelmente estaria causando o mesmo mal, senão pior, justamente por impor sofrimento prematuramente.

    A opção do anunciante (altamente arriscada!), foi associar sua marca a campanhas divertidas e leves, que por mais que possam gerar algum desconforto para alguns (a foto 4 que o diga), ainda assim são menos impactantes que a fria realidade do serviço prestado por um cemitério. Neste aspecto, não há exploração de medo ou superstição na medida em que trata de fato comum e inevitável.

    As campanhas do Cemitério não se diferem das campanhas produzidas por seguradoras, que, costumeiramente, exploram o azar, o imponderável e o inevitável. As seguradoras costumam se utilizar de expressões “e se”, “vai que”, dentre outras, para provocar um sentimento de risco imediato para contratação de um serviço futuro e eventual.

    O CONAR decidiu, recentemente, pelo arquivamento de um processo que suscitava abusividade das peças do anunciante. A entidade se associou à segunda corrente, de que, embora seja tabu, a morte não pode ser enquadrada como superstição, tampouco a publicidade que ‘brinca’ com fato certo e inevitável pode ser considerada exploração de medo, pela certeza de sua ocorrência.