O CONAR recebeu reclamação contra comercial veiculado pela Mullen Lowe Brasil, proprietária da marca Fini.

Nele, um menino olha, estático, para uma obra de arte, enquanto o narrador diz, com voz soturna, que embora seja domingo a professora pediu um trabalho para entregar sobre o museu de arte renascentista.

A entonação absolutamente entediada prossegue, com ênfase na frase “a visita tá só começando, ninguém pode brincar, muito menos conversar”.

Em seguida, ouve-se o som de abertura de um saco plástico, uma bala em formato de dentadura de vampiro é colada no quadro e a narração sai da entonação tediosa: “tudo bem, depois daqui tem fliperama”.

A decisão

O consumidor que formulou a reclamação argumentos que o conteúdo da peça publicitária era deseducativo a crianças e adolescentes, pois mostra, segundo seu juízo, a “depredação de uma obra de arte”. Referiu-se ao fato de ser colada uma bala no quadro.

A defesa da marca Fini argumentou “se tratar de bom humor e fantasia na peça publicitária”.

A 7ª Câmara do CONAR acolheu a defesa, determinando o arquivamento da representação.

Críticas à decisão

O fato de ser colada uma bala em formato de dentadura no quadro é menos impactante do que a forma como são construídas as frases do comercial.

A entonação deixa clara a sensação de tédio. O narrador, em tom de lamúria, diz que no museu não se pode brincar, nem se pode falar, mas que, “tudo bem”, já que depois haveria fliperama. Essa forma de comunicação deixa evidenciada, numa interpretação binária de antes e depois, que museus são chatos e fliperamas são legais, ou seja, primeiro o sofrimento e depois a recompensa.

A visitação a museus faz parte do conjunto de ações destinadas ao desenvolvimento da educação e cultura.

Embora na Constituição não haja dispositivo tratando especificamente de museus, e nem haveria necessidade de ter, o art. 205, inserido no capítulo “Da Educação, da Cultura e do Desporto”, tem redação que não admite a menor dúvida de que se trata de atividade que compõe a formação educacional do indivíduo:

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho

A educação, portanto, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, sem exceção.

Desta forma, a publicidade também tem responsabilidade de veicular conteúdos que não sejam contrários à formação cultural, esportiva, política e educacional das crianças.

O CONAR errou ao considerar que se trata de bom humor e fantasia. Sua decisão chancela o desincentivo à cultura e à promoção da educação.

Visitar museus, feiras, exposições, mostras e outros ambientes culturais pode ser menos interessante do que fliperamas. Porém, quem disse que a formação de jovens e adultos é feita apenas de jogos e diversões?