CAMPANHA DA NIKE COM O ATLETA DO FUTEBOL AMERICANO COLIN KAEPERNICK.

A Nike contratou o quarterback Colin Kaepernick, ex-jogador do San Francisco 49s (equipe de futebol americano), como garoto-propaganda de sua marca. Ao fazê-lo, está causando polêmica nos Estados Unidos.

Na campanha, a imagem do jogador em branco e preto é pano de fundo para a frase: “Acredite em algo. Ainda que isso signifique sacrificar tudo”. A campanha faz parte das comemorações dos 30 anos do slogan “Just do It” (apenas faça), que acompanha a marca que é uma das patrocinadoras do futebol americano e líder de vendas em material esportivo no mundo.

O motivo da polêmica. Colin Kaepernick tornou-se um personagem polêmico do esporte americano em 2016, ao ajoelhar-se durante a execução do hino nacional em protesto contra a forma de tratamento da população negra dos Estados Unidos.

Diversos atletas apoiaram o movimento “Black Lives Matters” (A vida dos negros importa), que repudia a forma violenta com que a polícia americana trata os negros que vivem no país, especialmente aqueles das classes mais humildes da população.

Em entrevista para a Revista Time, o atleta, de 30 anos, disse:

“Eu não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que futebol e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”

O gesto de Kaepernick foi seguido por outros jogadores da NFL, bem como da liga de basquete (NBA), causando incômodo em parte da população americana que considerou a atitude um desrespeito à bandeira norte-americana.

No centro da crise está o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusado de negligenciar o problema racial em seu país, que culminou, em agosto de 2017, numa guerra campal em Charlottesville, na Virgínia, ocasião em que grupos neonazistas protestavam contra a retirada de estátuas que homenageavam personalidades da Guerra da Secessão, cujo mote era justamente a questão escravagista. Houve mortes e dezenas de feridos no confronto. Trump foi acusado de ser permissivo à violência iniciada pelos radicais e outros grupos de apoio ao racismo.

Kaepernick, então, tornou-se persona non grata para o presidente americano, que recomendou que ele, e todos os demais que protestassem pelo mesmo motivo, fossem demitidos de seus clubes.

Parece que a proposta de Trump influenciou a NFL. Kaepernick está desempregado desde 2017. Seu contrato não foi renovado com o clube de San Francisco e o atleta alega se tratar de uma retaliação à sua posição política.

O presidente dos Estados Unidos vem reagindo fortemente às investidas dos movimentos de atletas. Exemplo disso foi o cancelamento do convite para visita à Casa Branca feito à equipe de basquete, Golden State Warriors, campeã da temporada 2017/2018, após o apoio expresso de atletas como Stephen Curry ao manifesto de Kaepernick. Vale ressaltar que a visita das equipes campeãs de hóquei, basquete, futebol americano e outros esportes à Casa Branca é uma tradição americana.

A reação contrária de alguns torcedores. Nem todos apoiaram a iniciativa de Kaepernick. Muito menos o patrocínio da Nike ao atleta. Seus apoiadores de peso, na grande maioria, são atletas negros, com bons contratos firmados com clubes ou empresas patrocinadoras do nível da empresa de material esportivo.

Parte da população considera a postura do ex-jogador de futebol americano um desrespeito à bandeira e ao hino nacional.

Muitas manifestações contrárias a Kaepernick e à Nike surgiram nas redes sociais. Fotos e vídeos de torcedores queimando camisetas do atleta e materiais esportivos da marca se multiplicaram. Também há uma campanha de boicote à Nike no Twitter denominada #NikeBoycott.

A cotação das ações da Nike na bolsa de valores americana caiu cerca de 3% no dia seguinte ao anúncio de Kaepernick como garoto-propaganda.

A empresa, no entanto, informou que investirá no atleta, e continuará patrocinando camisetas e tênis com o nome deste e de outros esportistas, tais como Odell Beckham Jr. e Shaquem Griffin (NFL), Lacey Baker (skateboard), Serena Williams (tenista) e LeBron James (NBA).

A campanha foi lançada pela Nike no Dia do Trabalho nos Estados Unidos, o que torna a questão ainda mais delicada, já que Kaepernick está desempregado, tornando-a mais do que mero material publicitário, mas uma crítica à própria NFL.

A Nike parece não estar preocupada com as repercussões negativas. A sua tradição no esporte, associada a uma clara postura de apoiar a causa social liderada pelo atleta parece ser maior do que a negligência do governo em adotar medidas mais eficientes contra os reincidentes atos de violência contra negros e hispânicos.