SBT: Brasil, ame-o ou deixe-o

    SBT lança vídeos nacionalistas. Num deles convoca o povo: "Brasil, ame-o ou deixe-o". Porém, esta frase foi usada pelo governo Médici durante o regime militar, num dos mais tristes períodos da história do Brasil.

    O SBT, nesta terça-feira, 6, passou a exibir nos intervalos de sua programação algumas peças de cunho nacionalista, como a canção Pra Frente, Brasil, que foi tema da seleção de futebol na Copa de 1970 e o Hino Nacional seguido de imagens e narração com frases nacionalistas.

    Não se sabe ao certo o porquê desses vídeos, mas um deles causou enorme alvoroço nas redes sociais.

    Numa das peças, o SBT exibiu um filme com trecho do Hino Nacional e a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

    Ocorre que esta frase foi utilizada durante a ditadura militar, mais precisamente durante a gestão do presidente Emílio Médici, que governou o país entre outubro de 1969 e março de 1974.

    A ditadura militar. Médici foi indicado indiretamente (sem voto popular, portanto) pelo Alto Comando do Exército para o cargo de Presidente da República. Seu governo foi o ápice do regime militar, iniciado no governo do general Costa e Silva.

    Nos “anos negros da ditadura”, como foi conhecido o governo Médici, a repressão aos movimentos de resistência se acentuou, com a censura dos meios de comunicação e atividades culturais, cerceamento das liberdades individuais, dirigismo econômico nos setores produtivos, controle dos currículos escolares e tortura de prisioneiros políticos.

    A guerrilha urbana era fortemente combatida pelas forças do exército e resultou no assassinato de líderes de movimentos de resistência ao militarismo, como Carlos Marighella, da Ação Libertadora Nacional (ALN) e Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária (VRP).

    Marighella assassinado, dentro de um fusca na Alameda Casa Branca, em São Paulo (Fonte: http://memorialdademocracia.com.br)
    Carlos Lamarca, morto por homens do Exército no sertão da Bahia. (Fonte: O Globo)

    O governo era dividido em três grandes áreas: militar, econômica e política. À frente dos militares foi nomeado o ministro do Exército, Orlando Geisel; Delfim Netto ficou à frente da Economia; e, na Casa Civil, foi nomeado o jurista Leitão de Abreu. O governo prometia à população o “milagre econômico”, que na prática nunca aconteceu.

    Havia um enorme desgaste do governo com a população, especialmente porque o plano econômico, despreocupado com programas sociais e com forte dirigismo dos meios de produção, retirava da iniciativa privada as liberdades de iniciativa e de concorrência, e indiretamente aumentava os índices de desemprego e inflação de preços, gerando ainda mais distanciamento entre as classes sociais e enfraquecendo os propósitos do militarismo, que prometia uma pujança econômica ao povo.

    O governo, então, lançou mão do slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”, como forma de tentar melhorar sua imagem junto à sociedade.

    Material publicitário do governo Médici

    Milhões foram gastos com publicidade institucional, numa vã tentativa de resgatar os valores patrióticos da sociedade e apoio popular ao regime.

    Nem toda publicidade é comercial. Nem toda publicidade pretende vender algo. Por vezes, ela é apenas institucional, isto é, visa fortalecer uma marca. Exemplo disso são os comerciais do Itaú com o slogan “leia para uma criança, isso muda o mundo”, consensualmente lindos, mas que pretendem apenas solidificar a marca da instituição financeira na sociedade.

    Os filmes exibidos pelo SBT não fizeram nem uma coisa, nem outra. Não têm conotação comercial, pois não estão vendendo absolutamente nada. Tampouco são institucionais, pois a marca da rede de televisão sequer é mencionada.

    Trata-se de mera propaganda de apoio político.

    Durante as eleições para presidente circulou informação via whatsapp de que Silvio Santos apoiava o então candidato Jair Bolsonaro. Segundo a mensagem que circulou nas redes sociais, Silvio dizia reconhecer no ex-deputado uma pessoa que partilhava dos mesmos valores que o seu.

    A assessoria de imprensa de Silvio Santos desmentiu a notícia, e disse se tratar de fake news.

    Os vídeos nacionalistas exibidos pelo SBT pretenderam, talvez, dar uma “lição de moral” no brasileiro, de que é preciso resgatar o espírito patriótico.

    Faltou combinar com a história!

    A falta de cultura histórica. Noutro arroubo de ignorância histórica, vimos o constrangimento que a atriz global Marina Ruy Barbosa passou ao anunciar um papel higiênico preto, cujo slogan era “Black os Beautiful”, que foi utilizada pelo movimento antirracista americano nos anos 60 e 70, como sinal de luta pela igualdade racial.

    As palavras têm sentido e estão presas à história. Seu uso deve ser cuidadoso para não produzir mais constrangimento do que elas, por si só, já são capazes de gerar, em especial aquelas empregadas em período tão triste da história.

    O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, do CONAR, estabelece em seu art. 19 o princípio da respeitabilidade, que consiste no seguinte: “Toda atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à dignidade da pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais, às autoridades constituídas e ao núcleo familiar”.

    Faltou estofo histórico aos que desenvolvam a peça, que poderiam ter evitado que o SBT e Silvio Santos passassem por este “carão”. É que a remissão a período tão duro da história política do Brasil acaba desrespeitando a dignidade humana e a democracia como instituição nacional.

    O SBT disse à Veja que retirou o filme do ar. Em nota, a assessoria de imprensa informou que “A emissora não se atentou para o fato de que a frase remetia ao período do regime militar”.

    Antes a desculpa, do que a insistência.

    O certo é que o SBT perdeu grande chance de não passar por tal constrangimento, sem contar que poderia ter utilizado o intervalo de sua programação para, quem sabe, vender um dos tantos itens da marca Jequiti.

    Veja mais fotos do período militar:

    Pelé, ao lado de Médici, erguendo a taça Jules Rimet, que simbolizou a conquista da competição.
    Propaganda institucional prometendo o “milagre econômico”

    A realidade da ditadura: o cerceamento das liberdades individuais. O forte policiamento nas ruas e o combate a toda forma de manifestação marcou o regime militar.
    Manifestantes exibem cartaz com trecho da música “Apesar de você”, lançada em 1970 por Chico Buarque.

    Manifestação é repreendida com violência pelas forças policiais