Imagem do buffet intitulado "Tronco dos Escravos", da coleção Quilombo dos Palmares.

CONAR determinou a sustação de publicidade de um móvel denominado “Tronco dos Escravos”, da linha “Quilombo dos Palmares”. O móvel – um buffet – possuía traços que lembram instrumento de tortura dos escravos.

O projeto. Diversos patrocinadores investiram na comunidade de Arranjo Produtivo Local (APL) de Móveis de Maceió e Entorno, que visa criar sinergia entre fabricantes e prestadores de serviço, com vistas ao incremento econômico da região. Dentre os patrocinadores estão o estado de Alagoas e o Sebrae.

Uma das propostas da APL de Móveis de Maceió e Entorno foi o desenvolvimento de móveis com o tema Quilombo dos Palmares e sua principal referência: Zumbi.

O Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, município de União dos Palmares, em meados do século XVII, auge do período escravocrata, chegou a abrigar mais de 30 mil pessoas, dentre as quais negros com alforria, escravos fugitivos, índios, mulatos e brancos pobres.

Inspirado no Quilombo dos Palmares, e em parceria com o designer Marcos Batista, a linha de móveis desenvolvida pela APL de Móveis de Maceió e Entorno lançou móveis que revisitam a história e cultura deste importante marco da luta pela liberdade.

A polêmica. Um dos móveis criados pela APL de Móveis de Maceió e Entorno é um buffet denominado “Tronco dos Escravos”, feito de MDF, com um acabamento de laca preto brilhante.

O buffet possui furos que retratam os troncos em que os escravos eram aprisionados pelo pulso ou tornozelo. O equipamento era utilizado para tortura ou apenas para aprisionamento.

Imagem do artefato utilizado para tortura dos escravos.

Para o designer Marcos Batista

“não se trata apenas de móveis, mas de histórias, de pessoas que com os seus sorrisos e mãos, preenchem nossas casas de alegria. A paixão em ser marceneiro”.

O historiador Laurentino Gomes, autor dos livros 1808, sobre a fuga da corte portuguesa para o Rio de Janeiro; 1822, sobre a Independência do Brasil; e 1889, sobre a Proclamação da República, manifestou-se em sua conta no Twitter:

Diversos ativistas se manifestaram contrários ao móvel.

Em sua página no Facebook, o designer publicou a seguinte nota:

De forma equivocada, membros de grupos nas Mídias Sociais, em Blogs e Sites da internet, estão distorcendo todo o trabalho e minha participação nele, me acusando de racismo, intolerância à diversidade, entre outras questões que estão completamente dissociadas da realidade.

Assim, valem alguns esclarecimentos:
• Todo o trabalho foi pautado para enaltecer a história, a luta e as conquistas do Quilombo dos Palmares, ícone inequívoco da Cultura Negra no Brasil;
• Os marceneiros do grupo não tiveram a intenção de racismo muito pelo contrário, o propósito do projeto era resgatar a luta pela liberdade;
• Nomes dados aos móveis foram sugeridos pelo grupo, somente com a minha influência na orientação de como poderíamos desenhar um móvel resgatando as formas, texturas e linhas; ou seja, neste projeto, não fui o responsável por batizar as obras que foram desenvolvidas pelos marceneiros;
• O móvel criticado com o nome Tronco dos Escravos compõem o portfólio (catálogo produzido) que nunca foi de cunho comercial e sim como uma referência para portfólio e entendimento da idéia, origem até a tangibilização do móvel.

Há acusações de ambos os lados, mas o certo é que qualquer publicidade acerca do buffet “Tronco dos Escravos” está suspensa por decisão do CONAR. Fez bem!

O Tronco dos Escravos, independentemente de ter sido usado em passado remoto, ainda continua provocando feridas na sociedade. Retratar a história é ciência. Sobre fatos como a escravidão, é bom que a história se incumba de fazer todos os registros possíveis, para sempre nos lembrar de quão estúpidos já fomos. Mas não se faz móveis inspirados em instrumento de tortura!

A título de analogia, seria o mesmo que o lançamento de um baú para retratar a história da câmara de gás.

Aplica-se ao caso a regra geral do art. 19 do Código CONAR: “Toda atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à dignidade da pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais, às autoridades constituídas e ao núcleo familiar”.

Uma coisa é certa no desabafo do designer: não há racismo. Houve, sim, uma provocação histórica que certamente resultaria nisso: uma bela farpa no dedo de todos!