K-Med adere ao desafio dos 10 anos.

Recentemente, milhões de pessoas em todo o mundo postaram fotos nas redes sociais em adesão ao chamado “desafio dos 10 anos”. O movimento, cuja origem não se sabe ao certo, também motivou empresas e marcas a aderirem à brincadeira.

A marca de lubrificantes K-Med não ficou de fora. Ela aderiu ao “desafio”, mas causou enorme polêmica ao fazer suposta analogia a uma cena de estupro ocorrida no cinema em 1972.

Na imagem divulgada em sua página no Facebook, a foto atual de seus produtos é colocada ao lado de um pote de manteiga, em referência a 2009.

A ideia não era afirmar que em 2009 as pessoas usavam manteiga como lubrificante. Há um tom evidentemente jocoso na proposta, mas que acabou rendendo críticas negativas, por ter feito apologia a uma cena de sodomização que na verdade foi um estupro real.

O estupro. A manteiga foi usada como lubrificante por Marlon Brando em cena de estupro no filme “O Último Tango em Paris”.

No filme, de 1972, dirigido por Bernardo Bertolucci, havia uma cena de sexo forçado entre os atores Marlon Brando, 48 anos, e Maria Schneider, 19.

Cena de estupro do filme “O Último Tango em Paris”.

Ocorre que Bertolucci, em entrevista concedida em 2013, confessou que a cena foi um estupro real. A atriz não foi avisada do que ocorreria em cena, tampouco de que seria usada a manteiga como lubrificante para que Marlon Brando, que interpretava um pervertido de meia idade, estuprasse uma jovem de 19 anos.

Segundo o cineasta, a ideia da manteiga surgiu no próprio dia da gravação. Ele queria que a jovem atriz reagisse “como uma menina, não como atriz”, ou seja, que a cena fosse a mais real possível.

A cena da manteiga permeou o imaginário fetichista por anos, especialmente porque o filme foi proibido em alguns países que atravessavam períodos de política “menos liberal”.

No Brasil, por exemplo, o filme só foi exibido em 1979, com o desaparecimento do regime militar.

A atriz, vítima da violência real, Maria Schneider, morreu de câncer em 2011, e viveu parte de sua vida com profundas crises de depressão. Chegou a admitir, em diversas entrevistas, que apesar de não ter havido penetração, se sentiu realmente estuprada pelo fato de não ser informada do que ocorreria em cena.

“Eu me senti humilhada e, para ser honesta, um pouco estuprada, tanto por Marlon quanto por Bertolucci. Após a cena, Marlon nem veio me consolar ou pedir desculpas. Felizmente, foi apenas um take.”

A proposta da K-Med talvez não tenha tomado como referência a cena de estupro do filme.

Há uma clara intenção de se fazer apologia à improvisação durante o sexo.

Talvez os idealizadores da campanha não fossem sequer nascidos ou não tenham conhecimento do fato que abalou o mundo do cinema.

No entanto, se a referência teve como fundamento a infeliz cena do filme, é de se lamentar que ela, repugnante pelo que posteriormente se soube, tenha sido matéria-prima para uma brincadeira publicitária.

Nas redes sociais houve de tudo. Parece que o público alvo da empresa viu a proposta com bons olhos, até descendo ainda mais o nível da “brincadeira”, o que é de se esperar, em se tratando de rede social.

Alguns comentários na postagem da K-Med.

Do ponto de vista jurídico não há nada de irregular, mesmo que estivesse se referindo à cena do filme. Afinal, não se trata de apologia ao crime, mas referência a um fato que acabou sendo imortalizado como uma das piores e mais tenebrosas cenas do cinema.

Seja como for, plantou-se a dúvida. Teria a K-Med insinuado uma possível cena de sodomização ou apenas feito uma brincadeira desprovida de malícia? Fica a critério de quem a interpreta.