DERCY GONÇALVES É "RESSUSCITADA" EM CAMPANHA DA POPEYES

“Absurdo”, “mau gosto” e “ridículo”. Estes foram alguns adjetivos (os mais leves, é claro!) usados por internautas que se depararam com a campanha da Popeyes, rede americana de fast-food que desembarcou recentemente no Brasil.

A marca “ressuscitou” a comediante Dercy Gonçalves na forma de um holograma que interage com consumidores.

Mas a iniciativa dividiu opiniões. Há quem discorde do uso de palavras de baixo calão, há quem não concorde em utilizar uma pessoa morta como garota-propaganda de um comercial.

Dercy Gonçalves, a garota-propaganda

Famosa por sua irreverência, a comediante, falecida em 2008 aos 101 anos, costumava fazer uso constante de palavras de baixo calão. Era sua marca registrada. Para os padrões da época, Dercy realmente era diferente, expondo desavergonhadamente sua forma de pensar, mesmo que para isso tivesse que falar duas ou três palavras absolutamente censuráveis.

E o que isso tem a ver com um comercial de frango frito? Nada!

Mas segundo Alessandro Bernardo, vice-presidente da agência responsável pela criação, a opção por trazer Dercy Gonçalves do mundo dos mortos é contextualizar o slogan da marca: “o frango frito f#*&”.

É isso mesmo, caro leitor, esse é o slogan da Popeyes.

Para Bernardo, “Mesmo tendo morrido há mais de dez anos, ela está bem em moda e tem potencial de virar ‘meme’ nas redes”. Além disso, a atriz representa autenticidade – segundo ele, um valor raro hoje, época em que até os cílios são falsos, as notícias são ‘fake’ e todo mundo faz pose.

No Twitter a campanha da Popeyes tem a seguinte chamada: “Ela voltou lá da p#t@ que p@ri* só para experimentar o único frango frito f#&* que fica 12 horas marinando”. Veja:

A campanha teve início com um stand instalado no Shopping Internacional de Guarulhos. Nele, um holograma de Dercy interagia ao vivo com consumidores da rede. O aparato tecnológico foi instalado dentro da loja da Popeyes, e Dercy era interpretada por um ator que dublava a voz da comediante.

A tecnologia usada pela Popeyes é de ponta, com equipamento que identifica os movimentos do ator e os transforma em imagens 3D da personagem.

A proposta é um tanto diferente de shows como os de Elvis Presley e Queen, em que os cantores, já falecidos, eram representados por hologramas reais, ou seja, os próprios artistas projetados no palco a partir de imagens extraídas de apresentações passadas.

Sobre o emprego de palavras de baixo calão

Sobre toda e qualquer publicidade deve preponderar a defesa do consumidor e a ética. Por mais que tenham investido alguns milhares de reais ou de dólares, e certamente investiram, há que se questionar sobre os problemas que eventualmente podem ser enfrentados pela anunciante.

E antes que se diga que isso é mero puritanismo ou excesso de conservadorismo, vale enaltecer que é o próprio CONAR quem adota posição conservadora neste caso.

O artigo 22 do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária estabelece a obrigação de toda e qualquer publicidade atender os padrões de decência do destinatário. O texto da norma é o seguinte: “Os anúncios não devem conter afirmações ou apresentações visuais ou auditivas que ofendam os padrões de decência que prevaleçam entre aqueles que a publicidade poderá atingir.”

Em 2013 o CONAR determinou a alteração de comercial do Fiat Punto, em que uma velhinha falava palavras de baixo calão para elogiar o carro. A defesa da Fiat e da Leo Burnett (agência) alegaram que a definição de baixo calão é subjetiva e que os termos empregados eram de uso corrente entre a maioria da população.

Para o relator do processo “Há um segmento da população que desaprova ou se sente ofendido pelo uso de calão, ainda que envolto pelo clima de humor dos filmes (…). “Não há como exigir que todas as pessoas gostem ou não vejam problemas na presença de termos como os empregados no filmes. A comparação alegada pela defesa com programas de TV é correta, mas, na minha opinião, não se aplica ao caso. Quando um telespectador se sente ofendido pela presença de palavrões, explícitos, simulados ou cobertos por ruídos, ele pode simplesmente deixar de assistir ao programa ou canal. No caso de um comercial, isso não é possível. Desta maneira, é preciso muito cuidado com o conteúdo e a forma de um comercial, principalmente quando exibido em TV aberta”. (Representação 243/13)

O CONAR já determinou, em várias situações, a alteração de campanhas publicitárias que utilizaram palavras de baixo calão.

O uso dos chamados ‘palavrões’ na publicidade é sempre muito complicado. A Popeyes corre o risco de ter sua campanha sustada, se adotado o mesmo entendimento pelo CONAR, ao apresentar a comediante Dercy Gonçalves, lembrada fundamentalmente por falar ‘palavrões’ a quem quer que fosse. E o pior: o fato ocorreu em meio ao Shopping, na presença de adultos e crianças.

Sobre o uso da imagem

Outro aspecto, já explicado pela marca, é a impossibilidade de se fazer uso da imagem de pessoas mortas sem a expressa autorização dos herdeiros.

É que, mesmo depois de morto, o direito de imagem, especialmente para fins comerciais, é personalíssimo. Não se pode usar a imagem de pessoas, vivas ou mortas, sem sua expressa autorização ou dos familiares.

Mas anunciante disse que a proposta contou com o aval da família de Dercy.