Gillette generaliza: homens não prestam!

    Gillette cria estereótipo de homem segundo sua concepção e, com isso, causa revolta dos que ou não querem ser incluídos no rol arbitrariamente estipulado pela marca ou que, sendo daquele jeito, não querem ser ridicularizados, tampouco vítima de preconceito.

    Tão ruim quanto afirmar que todo brasileiro no exterior é “um canibal”, como disse recentemente o Ministro da Educação, é toda e qualquer outra generalização, seja qual for o assunto. Para tudo nesta vida há exceção. Só não as vê quem não quer,

    A Gillette generalizou e, ao fazê-lo, cometeu um grande erro, uma leitura equivocada da realidade, que acabou gerando uma repercussão negativa de seu comercial.

    No comercial, que já não é novo, a Gillette mostrou homens tendo atitudes machistas. O nome do filme é “The best man can be”. Ele propõe uma mudança de comportamento dos homens para influenciar os jovens e promover uma mudança do amanhã.

    A repercussão. Sempre que alguma marca, especialmente as mais renomadas, tenta estereotipar seu público o resultado costuma ser sempre o mesmo: um apedrejamento nas redes sociais.

    No YouTube o vídeo da Gillette chegou a 1,4 milhão de dislikes, contra cerca de 800 mil likes.

    Talvez a Gillette não tenha conseguido (i) convencer os machistas de plantão de que é necessário agir de forma diferente; ou (ii) convencer a sociedade de que todos os homens agem realmente do jeito como são retratados no filme.

    A Gillette talvez tenha acertado na proposta, mas errado na avaliação, ao mostrar muito mais homens do lado ‘troglodita’.

    É sua interpretação da realidade que é discutível, pois ao que parece, a visão de mundo da Gillette é absolutamente negativa: nenhum homem presta!

    As campanhas publicitárias que tentam dar a chamada ‘lição de moral’ costumam receber muitas críticas nas redes sociais. As pessoas afetadas pela mensagem costumam não mudar seu comportamento por causa do comercial. Pelo contrário. Como são justamente a retratação daqueles estereótipos, acabam se sentindo oprimidos pelos grupos que apoiam a proposta da marca, ou seja, ao invés de educar, esses filmes acabam criando polarizações.

    Por outro lado, os grupos que não se sentem representados pela campanha, no caso os homens que não são trogloditas machistas como os que a Gillette apresentou, acabam tendo repúdio da marca ao perceber que são colocados todos num mesmo balaio, o que também é considerado um erro fatal para o sucesso da marca.

    Do ponto de vista da legalidade não há nada a ser criticado. Particularmente, penso que o comercial não poderia mostrar duas crianças brigando, mas isso é uma posição pessoal, que não encontra respaldo na legislação vigente e, no mais, faz parte de um contexto do filme.

    Estereotipar a sociedade parece ter se tornado uma tática comum. Isso configura, indiretamente, uma forma de discriminação, já que promove a repulsa contra aquele tipo de pessoa retratada no filme. Cria-se uma polarização do bem contra o mal, segundo o entendimento de uma marca.

    O artigo 20 do Código Brasileiro de Autorregulação Publicitária, do CONAR, estabelece que “Nenhum anúncio deve favorecer ou estimular qualquer espécie de ofensa ou discriminação racial, social, política, religiosa ou de nacionalidade“. Isso bastaria para que nenhuma forma de estereótipo fosse admitida, pois acabam aumentando a vala entre os diversos modos de entendimento.

    Além do mais, a marca que costuma ter arroubos de antropólogo ou sociólogo, e aposta num bando de publicitários despreparados para entender a realidade crítica do mundo, acaba se passando por arrogante, como se quisesse impor ao mundo uma só forma de ser. E a sociedade costuma não gostar dessa arrogância autoritária, de querer dizer o que e como devem ser as pessoas.

    Enfim, o desafio foi lançado pela Gillette. Que tipo de homem você é, e o que você está deixando para as próximas gerações? Espero que não seja apenas uma visão estereotipada de mundo!