BIS premiará alunos que reprovaram

    A marca de chocolates BIS premiará alunos que reprovaram com caixas de chocolate

    Logo da ação de marketing "Bombou Ganhou"

    A Mondelês Brasil, dona da marca de chocolate BIS, lançou a ação “Bombou Ganhou”, que percorrerá universidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre e “premiará” alunos reprovados com caixas de chocolate.

    Para ganhar o chocolate, o aluno deverá comprovar a reprovação por meio da apresentação de cópia de seu boletim impresso ou digital. Cada matéria reprovada renderá ao aluno uma caixa do produto.

    Segundo a empresa, a ideia é aproximar a marca do público jovem e dar a possibilidade de compartilhar o chocolate com os novos colegas de sala, pressupondo, é claro, que o aluno acabará tendo que cursar as disciplinas, o semestre ou o ano numa nova sala, com uma nova turma. 

    A linguagem utilizada é direta, simples, e a ação é realizada por meio de influenciadores que têm grande aceitação do público jovem.

    Nas redes sociais a ação é apresentada com sorrisos e frases de estímulo: “Reprovar é chato. Mas não é o fim do mundo. Pelo menos dá pra levar um Bis e fazer amigos na sala nova”. Veja a publicação da marca no Instagram:

    A campanha não parece ter agradado a maior parte dos jovens, pelo que se lê nos comentários postados no Facebook:

    “Ah não! Estudar o ano todo, gastando materiais escolar, tempo e passagem, pra ficar reprovado no final do ano? Para mim é o cúmulo do ridículo. Nunca gostei de ficar reprovada. Nunca fique na verdade. Fazia questão de tirar boas notas, desde o começo do ano letivo. Tem mais é que estudar pra passar.”

    “Achei infeliz a propaganda mas também essa super vanglorização de quem tira notas altas é errada, até porque tirar nota alta n é garantia de nada. Não é garantia que vai arranjar um bom emprego ou conseguir ser um bom profissional ou ter sucesso sem se sentir frustrado.E não sou eu quem tô falando, são exemplos reais.”

    “Só no Brasil para fazer uma propaganda voltada para alunos reprovados. No Brasil em que ocorre a “marcha dos reprovados ” idealizada por Paulo Freire, em que alunos não sabem ler e interpretar textos e muito menos operações básicas. Uma propaganda dessa é bem a cara do perfil dos estudantes brasileiros.”

    Para boa parte do público, que não vê na reprovação nenhum mérito, a campanha é um desestímulo ao estudo.

    O artigo 6º do Código de Ética do CONAR tem a seguinte redação: “Toda publicidade deve estar em consonância com os objetivos do desenvolvimento econômico, da educação e da cultura nacionais”.

    Apesar de uma reprovação não ser o “fim do mundo”, ao premiar alunos “que bombaram” a marca parece enaltecer a reprovação. Portanto, não parece estar em consonância com os objetivos do desenvolvimento da educação, segundo os comentários ofensivos que a proposta está recebendo.

    Tal meritocracia invertida é bastante perigosa, especialmente no Brasil. Num país em que os índices de evasão são elevados, a quantidade de alunos no ensino superior sem nenhuma vocação é grande e os níveis de pesquisa e de pós-graduandos não consegue apresentar números sequer aceitáveis, é arriscada qualquer ação de estímulo ao não estudo, especialmente quando liderada por influenciadores jovens e capazes de relativizar o processo de ensino-aprendizagem, caso a proposta não seja muito bem compreendida por seu destinatário.

    Se não bastasse, numa das ações da marca os jovens são convidados a “marcar” os colegas que não obtiveram aprovação. Tal proposta pode desencadear constrangimentos incalculáveis, caso tal “marcação” não tenha o expresso consentimento do “marcado”.

    Mais do que isso, há situações peculiares, pois muitas vezes a reprovação é motivo de vergonha e constrangimento para o aluno, que não deseja tornar pública a sua situação pessoal, seja por motivo de trabalho, seja por motivos familiares.

    Por vezes, uma reprovação tem implicações bem mais profundas do que a simples necessidade de se adaptar a novos colegas. Há contratos de estágio, planejamento financeiro, contratos de FIES, ProUni etc., que certamente não serão recompensados com caixinhas de chocolate.