Gusttavo Lima em sua live "Fique em casa e cante #comigo"

O cantor Gusttavo Lima ingeriu um bom tanto de bebida alcoólica durante a live que produziu sob o patrocínio da Ambev.

Tudo fez parte de uma ação de marketing, também conhecida como publicidade indireta. Nela, o garoto-propaganda, que é o próprio artista, faz uso de um produto como se estivesse no dia-a-dia de seu cotidiano, e com isso acaba induzindo as pessoas a consumi-lo.

Mas a cena de um sujeito ingerindo bebida alcoólica diretamente no gargalo podem até gerar alguma idolatria entre seus fãs com menor capacidade de julgamento ou filtros sociais. Para olhares mais atentos, vão do constrangedor ao ilegal.

O Conselho de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), após receber reclamações de consumidores, instaurou processo administrativo para apurar irregularidades nesta ação de marketing praticada por Gusttavo Lima. E é claro que elas existem mesmo!

Já escrevi sobre isso noutra oportunidade, quando analisei o caso de Pabllo Vittar no clipe da música ‘Parabéns’, em que aparece tomando um copo de vodka, em clara ação publicitária.

E o que há de comum entre Gusttavo Lima e Pabllo Vittar? Garanto que não é apenas o fato de ambos usarem duas letras ‘t’ no nome. Em comum, ambos fizeram uma ação de merchandising, veiculando imagens em que aparecem ingerindo bebida alcoólica, Vittar no clipe, Gusttavo na live. Em nenhum dos casos é possível estabelecer mecanismos de restrição ao conteúdo a menores de idade. Quantos jovens estavam assistindo a bendita live e se “inspirando” no comportamento do ídolo?

As lives se tornaram comuns neste período de distanciamento social. Algumas, no entanto, verteram para um tipo de comportamento que sempre se imaginou, mas nunca se presenciou. Quer dizer, imaginava-se que o cantor A ou B gostava de tomar umas e outras, mas nunca ninguém conseguiu ter acesso à vida íntima do artista. Tudo ficava apenas no imaginário. Ao contrário, as lives são criadas para expor o modo de vida do artista, como se elas dissessem: estou aqui em casa, fique aí na sua também. E, em casa, teoricamente podem fazer qualquer coisa, inclusive tomar bebida alcoólica no gargalo.

Entretanto, o que se vê são shows muito bem produzidos, com cenografia própria, iluminação minuciosamente preparada e muitos, muitos patrocinadores. Ah, mas antes que você questione, sou um liberal e acho que é um direito do artista de querer receber, o da empresa de querer patrocinar e o do fã de querer assistir.

Mas não só de direitos vive o mundo. Há que se lembrar dos deveres. Um deles é o de cuidar para que o jovem não seja alvo de maus exemplos. A mensagem que se deve passar no atual momento é: “fique em casa para evitar o contágio”, e não “fique em casa, em festa, e beba à vontade”. Aliás, estudos mostram que em períodos de quarentena aumenta o consumo de bebida alcoólica. Seja lá qual o motivo deste aumento, o certo é que não há necessidade de que a prática seja incentivada por um artista.

Em suas redes sociais o cantor Gusttavo Lima transformou o CONAR em vilão, como se tivesse sofrido alguma espécie de censura. E mais uma vez agiu mal, como uma criança mimada que não reconhece a sua própria culpa, que desrespeitou a ideia do “fique em casa” e transcendeu para o “fique bêbado”.

Vale registrar que a própria Ambev reconheceu ter havido falha de protocolo, pois há uma orientação do que não é permitido fazer. A Ambev, ao contrário do cantor, teve a grandeza de vir a público e pedir desculpas. Já o cantor disse ter sido vítima de censura!

Ora, o rapaz, de 30 anos, certamente não faz a menor ideia do que seja, de fato, uma censura. O ato de censurar importa na supressão de conteúdo, no todo ou em parte, em razão de motivos normalmente de natureza política. A dele, se assim for decidido pelo CONAR, será a de supressão das imagens em que aparece ingerindo bebida alcoólica.

O CONAR, vale repetir, não tem poder para censurar. Por pior que seja a música ou o artista, seu limite de atuação é apenas em relação as questões de natureza publicitária. E, já que insistem em fazer merchandising, por aceitarem de bom grado a verba publicitária, devem aceitar conviver sobre a mesma regra que os demais indivíduos. O CONAR não é polícia, não é judiciário, não é estatal. É uma entidade privada composta por representantes da própria iniciativa privada ligados à comunicação e à publicidade.

Em nota divulgada em seu site, o CONAR faz um importante registro de que não é censor de conteúdos:

O Conar atua exclusivamente, e em nome de anunciantes, agências e veículos de comunicação – por respeito aos consumidores – no exame do conteúdo de publicidade de todos os tipos, inclusive aquelas envolvendo influenciadores digitais. Aplica o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária.

“O Conar não cuida do conteúdo artístico e/ou editorial que, constitucionalmente, está  sob o domínio da liberdade de expressão. A atuação do Conar está restrita à análise de anúncios cujos responsáveis pactuaram em produzi-los e veiculá-los dentro dos limites da ética.

Em programas, lives ou qualquer outro tipo da manifestação artística ou cultural de transmissão pública, apenas as peças publicitárias, gravadas ou ao vivo, são objeto da análise do Conar, que assegura a anunciantes, veículos e/ou influenciadores o direito amplo de contestar o que lhes é imputado, fruto de denúncia de consumidores, da própria monitoria do Conar ou de autoridades.

Uma coisa é um show, em que há censura etária a depender do conteúdo. Certamente crianças não terão dificuldade para entrar no show do Patati-Patatá, mas terão para entrar no do Iron Maiden. Se Bruce Dickinson lá pelas tantas quiser pegar uma garrafa de vinho e tomar no gargalo, problema é dele. O público presente já foi devidamente selecionado e só estão lá aqueles autorizados a ver tal cena. Outra coisa é um conteúdo aberto, explícito, incontrolável, como é o caso do YouTube. E se o espaço é aberto e a entrada é livre de controles, há uma ilegalidade caso sejam praticados determinados atos, como por exemplo, a ingestão de bebida alcoólica sem as devidas advertências.

Portanto, errou o cantor Gusttavo Lima! Errou ao beber ao vivo, errou ao criticar a decisão do CONAR, errou ao se fazer de vítima de censura.

Toda e qualquer publicidade no Brasil sujeita-se ao Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária do CONAR. O Código não foi imposto, foi uma decisão dos próprios agentes de mercado. O Código foi criado para escapar da fiscalização estatal, ou seja, para escapar de uma possível censura imposta por órgãos do governo, o que, convenhamos, estaria sujeita a mudanças de posições políticas. Indiretamente, portanto, a decisão de seguir um código próprio foi de todos os que bancaram a live de Gusttavo Lima.

É claro que Gusttavo Lima não conhece a história da publicidade e do porquê de seus agentes decidirem se submeter à autorregulação ao invés da regulação estatal. Se soubesse, não usaria a palavra censura ou, no mínimo, saberia quais os limites para uma ação de merchandising.